quarta-feira, novembro 14

Reduto de paz: cidade baiana com criminalidade zero em 2017 é definida pelos moradores como “paraíso”

Às margens da BA-245, o município com pouco mais de dez mil habitantes, segundo o Censo de 2017 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ainda exprime características típicas de uma cidade interiorana. No entanto, além dos aspectos pacatos, outras peculiaridades fazem a localidade ser diferente.

Imagine morar em um local onde um dos poucos crimes mais lembrados pelos moradores aconteceu há mais de 15 anos? Sair e deixar a chave da porta de casa pendurada em uma árvore? Descer da motocicleta para comprar algo e deixar a chave na ignição do veículo? Ou até mesmo, montar uma barraca para comercializar seus produtos, deixá-la sozinha e voltar horas depois com a certeza de que vai encontrar tudo onde deixou? 

Com o crescimento da criminalidade nas grandes metrópoles e também em municípios do interior, torna-se difícil acreditar nesse cenário. Entretanto, ainda há lugares com esses atributos, e um deles está localizado a cerca de 330 quilômetros de Salvador: bem-vindo a Marcionílio Souza, a cidade que aparece entre as três da Bahia sem registros de crimes no ano de 2017.

Segundo dados da Secretaria da Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), ao lado de Guajeru, a 600 km da capital baiana, e Umburanas, na região norte do estado, Marcionílio Souza pode ser considerada um recanto de paz, já que em 2017 não foram contabilizadas ocorrências de homicídios, lesões corporais seguida de morte, latrocínios – roubo seguido de morte-, roubos ou furtos de veículos, estupros, roubos a ônibus, apreensões ou uso de substâncias entorpecentes. 

Ainda de acordo com a SSP-BA, de 2014 até março deste ano, seis pessoas morreram de “morte matada” no município, ou seja, menos de um homicídio por ano. Já em relação ao número de veículos furtados no mesmo período, a quantidade é ainda menor: apenas dois motoristas tiveram o carro furtado na cidade. 

Mas, o que dizem os moradores?

O baixo índice de criminalidade e a sensação de sossego chamaram a atenção do policial militar da reserva, Jorge Ribeiro, de 58 anos, que escolheu o local para viver com a família. Natural de Salvador, ele conheceu a localidade através da esposa, que é marcionilense – gentílico para quem nasce no local -, e no que depender dele, é lá que os dois filhos irão crescer. 

“Quando eu cheguei aqui, foi amor à primeira vista. Daí eu pensei: ‘qualquer tempo, ainda venho morar aqui’. Na época, eu trabalhava em Santo Amaro e pedi transferência para Itaberaba, em seguida, aluguei uma casa aqui em Marcionílio, morei cerca de dois anos, depois nos mudamos para Itaberaba para ficar mais perto do trabalho, mas um tempo depois eu resolvi voltar e comprar uma casa aqui”, contou.

Após um período de adaptação, o policial relembra um episódio que o fez ter a certeza de que ali seria o lugar ideal para criar os seus filhos.

“Teve uma noite que meus filhos esqueceram as bicicletas do lado de fora da casa. Fomos dormir e elas ficaram lá fora. No outro dia, quando acordei, as bicicletas estavam lá no mesmo lugar. Foi nesse dia que me convenci que aqui era o lugar para eu morar com a minha família”, recordou.

Quem também foi à procura da tão sonhada tranquilidade foi o comerciante Renan Santos. Acostumado com a vida turbulenta e apressada na capital, ele passou a morar em Marcionílio há apenas quatro meses e aproveitou para investir no seu próprio negócio.  

“Eu morei 13 anos em Salvador, e a capital está muito perigosa. Eu tenho uma filha de quatro anos e aqui é muito legal para se criar um filho. Antes, eu vivia no meio das tribulações, hoje eu vivo nessa calmaria. Aqui não tem troca tiros, ninguém passa armado em sua frente e além do mais eu não preciso atender os meus clientes atrás de uma grade”, afirmou o comerciante que abriu um mercadinho no centro da cidade.

Para o vendedor ambulante, Renilson Bispo, que também passou a comercializar seus produtos em Marcionílio há dez anos, a atitude, que classifica como desastrosa, de sair e deixar a carteira e o celular à vista, não é um problema para quem vive na cidade.

 “Devido à segurança, eu coloco a minha barraca, muitas vezes saio para fazer alguma coisa e deixo tudo aqui. Eu sei que quando eu voltar, eu vou encontrar tudo no mesmo lugar. E eu sou meio desastrado, eu deixo celular, carteira, mas graças a Deus nunca foi roubado. Já em outras cidades que eu também monto a minha barraca, eu não tenho essa mesma liberdade que eu tenho aqui”, disse.

Se para quem chegou há pouco tempo, a sensação de segurança já é evidente, imagine para quem alcançou os 100 anos e viu de perto as diversas modificações do local? É o caso do aposentado Valentim de Souza. Com um sorriso estampado no rosto e orgulhoso de ser o único centenário do município, ele conta que chegou a morar fora, porém, a busca pela liberdade o trouxe de volta para o lugar que define como “paraíso”.

“Passei 20 anos em São Paulo, mas voltei em busca da minha tranquilidade e liberdade. São Paulo é um cativeiro. Isso aqui é um paraíso. Não tenho medo de ficar aqui fora [de casa]. Eu saio à hora que eu quero, às vezes até tarde da noite, e graças a Deus nunca me aconteceu nada. Ter essa liberdade é bom demais”, ressaltou. 

Cidade de tempo lento

Para o historiador Marcos Ribeiro, a liberdade citada pelo aposentado tem uma explicação: a vagarosidade que ronda o município. “Aqui é uma típica cidade do interior. O geógrafo Milton Santos define alguns municípios pequenos como ‘cidade de tempo lento’, que é onde as coisas acontecem de maneira vagarosa. As pessoas têm tempo para tudo”, explicou.

Antigo distrito da cidade de Maracás, Marcionílio Souza foi durante muito tempo rota de tropeiros e ponto de embarque e desembarque de passageiros de trens. Posteriormente esse tipo de transporte caiu em desuso, restando apenas a circulação de trens de carga. “Os tropeiros paravam aqui para descansar debaixo de uma árvore chamada Tamburi, e em seguida eles seguiam caminho. A partir desses tropeiros, começou a surgir um arraial”, contou.

Ainda segundo o historiador, o nome é em homenagem ao coronel Marcionílio Antônio de Souza, que viveu em Maracás.

Tranquilidade ameaçada pelo tráfico de drogas

Engana-se quem pensa que atuar como delegado em uma cidade com o índice baixo de violência é uma tarefa fácil. No comando da delegacia há pouco mais de um ano, o delegado titular Ricardo Ribeiro contou ao BNews que utilizou os primeiros meses de convivência no local para identificar os possíveis problemas relacionados à criminalidade.

“Marcionílio é uma cidade relativamente tranqüila. Apesar disso, utilizamos esses primeiros meses para tomar conhecimento, ter esse primeiro contato com a cidade e entender como as coisas aqui funcionam e inclusive nos que diz respeito à criminalidade”, afirmou.

Para o delegado, o clima de segurança está associado à localização do município. “Crimes como homicídios costumam acontecer com maior frequência em locais com a movimentação econômica grande, o que não é o caso de Marcionílio. De certa forma, estamos afastados dos grandes centros. Isso acaba protegendo um pouco a cidade. Eu atribuo o fato de Marcionílio ter esses números baixos à questão do isolamento, da pouca atividade e pouca população”, disse.

Apesar disso, ele explica que já foi notada a presença do tráfico de drogas. A constante disputa por pontos de vendas tem se tornado um sinal de alerta. “O que a gente tem diagnosticado é o surgimento de uma disputa entre facções de traficantes de drogas. Isso tem acontecido e tem nos preocupado”, ponderou.

“Em 2017, não houve nenhum homicídio, já em 2018 ocorreu um, que está vinculado à questão da disputa por pontos do tráfico. O que a gente sabe é que a droga também está presente em Marcionílio e em todo lugar. Até pouco tempo, esse tráfico era dominado por um grupo apenas. Hoje, há outros grupos disputando os pontos de vendas”, relatou.

A morte do palhaço

Questionado sobre qual crime mais marcou os moradores do local, o delegado lembrou o caso de um palhaço que foi assassinado a facadas em uma rua da cidade. Na época, Ribeiro nem sonhava em ser delegado, já que o homicídio ocorreu há mais de 15 anos. 

“Tinha um circo na cidade e o palhaço estava fazendo algumas brincadeiras com o público e um homem que estava na plateia se irritou com uma das brincadeiras. Ele acabou juntando um grupo de pessoas que perseguiu esse palhaço pelas ruas da cidade. Depois de alcançar o palhaço, ele cravou uma faca no crânio da vítima. Todo mundo aqui se lembra dessa história até os dias atuais”, contou.

Relação polícia x comunidade

Ainda conforme o delegado, o bom relacionamento da polícia com a comunidade é um dos principais fatores que contribuem para a baixa estatística de crimes no município. 

“O trabalho realizado sempre pautado no que a lei preconiza, sem exacerbar, extrapolar, cometer abuso de autoridade. Eu percebo que quando você é franco e explica as coisas com sinceridade, as pessoas passam a respeitar, entender e estabelecer um excelente vínculo com a polícia”, diz. 

Relação ultrapassa os muros das escolas

Prova do relacionamento estabelecido entre a polícia e os moradores locais é a parceria firmada entre a Polícia Militar e a Secretaria Municipal de Educação. De acordo com a secretária responsável pela pasta, Ana Lúcia Magalhães, os alunos recebem palestras semanais com o intuito de prevenir e reduzir o uso indevido de drogas e a prática de violência.

“Na juventude, é natural que as pessoas se encantem muito facilmente com as coisas, então uma vez na semana a PM vai até a sala de aula fazer um trabalho de prevenção e alerta para que aqueles alunos não deixem se iludir com o mundo das drogas. No final, tem uma formatura e os alunos que participaram recebem medalhas”, explicou.

O projeto, que começou a ser desenvolvido em 2017, deve se repetir neste ano. “No ano passado, fizemos essas atividades com alunos do 5° ano e vamos repetir nesse semestre com a inclusão do 7° ano”, completou.

Ainda segundo a secretaria, para que Marcionílio continue distante do mapa da violência, é necessário que as crianças e adolescentes descubram e desenvolvam desde cedo as suas capacidades. Para isso, ela elencou algumas atividades elaboradas pela secretaria de Educação.

“Nós temos alguns projetos pontuais e outros que já têm uma sequência. Temos a fanfarra municipal que envolve cerca de 100 jovens, o coral Encanto do Sertão, capoeira, teatro. Além disso, a partir de agosto uma de nossas escolas passará a ser de tempo integral, justamente para que essas crianças fiquem na escola durante todo o dia”, afirmou.

Além das ações desenvolvidas no âmbito educacional, o prefeito da cidade, Adenilton Meira (PTB), conta que chega a gastar em média R$ 14 mil mensais com segurança pública, área de competência do Estado. “Gastamos desde a gratificação dos policiais, alimentação para os detentos e para os policiais, combustível para viatura, escrivão, carcereiro, funcionário da limpeza, tudo custeado pela prefeitura”, listou.

Ainda de acordo com o gestor, o valor investido poderia ser utilizado em outras áreas do município. “Gostaria muito que o Estado oferecesse pelo menos uma estrutura mínima, pois com esse recurso daria para comprarmos ambulâncias, construir casas populares e fazer outras coisas”, finalizou.

CONFIRA AS DEZ CIDADES BAIANAS SEM REGISTRO DE HOMICÍDIOS NOS ÚLTIMOS QUATRO ANOS:

1- Abaíra 
2- Botuporã 
3- Brejões 
4- Contendas Do Sincorá
5- Cordeiros
6- Dom Macêdo Costa
7- Licínio De Almeida
8- Maetinga
9- Malhada De Pedras
10- Rio Do Pires

Fotos: Diego Vieira/BNews

Fonte: Boção News

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