quarta-feira, outubro 16

Micareta de Feira: O flop e a necessidade de pensar o “velho novo”

Por Manoel Rosa – Insta: @manoelrosak

Poderia começar esse texto trazendo todos os índices de violência e descaso que acontecem em Feira de Santana, como também dizer que sou um paquerador nato daquela cidade, admiro muitas pessoas que ali nasceram e vivem, gosto do requinte dos bares, da intensidade do povo que me recebe lá e de uma Lua que conheci ao acaso, mas já considero muito.

Toda manhã, como uma espécie de “rotina”, navego por alguns sites de notícias e leio o meu Correio* digital (hábito de jornalista). Esta é minha primeira vez aqui no Se Liga Alagoinhas!, preciso dizer que já trabalhei no Correio* e que sou fã. Nessas navegações me deparei com um vídeo-matéria intitulada “Mesmo com Bell Marques, Micareta de Feira não consegue atrair público na abertura; veja vídeo”.

Há cerca de 5 anos, pesquiso sobre a necessidade de descolonizar o saber e humanizar as relações, para quem não compreende descolonizar é reconhecer os ranços da colonialidade, ou seja, do processo da colonização, da escravidão e a europeização das nossas relações sociais, que fortalece o distanciamento das pessoas e mantém uma corrente cíclica de desigualdade e falta de oportunidade para diferentes classes sociais, sexuais, econômicas e outros.

Quando me deparei com essa matéria, logo um “estalo” apareceu. Assessoro alguns políticos e já trabalhei na assessoria de diversos órgãos, nessa busca pela humanização das relações me preocupo com todos os passos que nós, que estamos em órgão de domínio público trilhamos, principalmente com as pessoas e como nossa relação interpessoal influência diretamente na vida da população. Neste “estalo”, me vieram muitas questões, principalmente no que diz respeito as novas tecnologias, a democratização das relações através da internet e das redes sociais.

Engraçado! Como uma matéria te dá um “impulsionamento” a tantas e profundas questões: Por que um grande número de pessoas não foi para a abertura do Micareta? Para quem é o Micareta? É seguro? Posso levar minha família? Posso usar meu celular? Por que as pessoas estão em camarotes? E por que o Micareta virou Micarote? Deixo que vocês respondam essas questões e podemos fazer uma live no instagram para falar sobre isso, inclusive, @manoelrosak. Me deparei com a situação financeira do país, com um dia da semana, com diversas possíveis respostas que podem nortear esses questionamentos.

Sob meu olhar, de marketeiro*, um dos pontos principais dessas respostas giram em torno de que é preciso repensar as relações de mercado, de compra e do desemprego nesse modelo de capitalismo carteira-assinada, e no público que é o alvo desses eventos. Não acredito no modelo “Micaretista” de festa de largo, pelo menos nesse que fui obrigado a engolir por anos, na verdade desde que nasci, aqui na Bahia.

Depois de sair do meu estado-mãe, fui para outros estados e me envolvi com os carnavais de Pernambuco e da Paraíba, comecei a perceber o saudosismo que paira no peito da nossa sociedade: a gente quer viver um “velho novo”, isso quer dizer, queremos a inovação do século com o jeitinho do antigo, a possibilidade de brincar e curtir em paz! Em paz com nossos filhos, com nossa família, com nossos os amigos e o nosso queridinho: “o celular.

Você pode se questionar, sobre Salvador, não sinto isso em Salvador como também não sinto na “princesa”. Por isso, acredito que iremos retornar gradativamente aos bloquinhos de carnaval onde a gente curtia livremente sem necessariamente gastar mil reis com um abadá.

Com as redes sociais, queremos escolher o que fazer com nosso dinheiro e ainda a liberdade de devolver e recebe-lo de volta quando “algo” não nos deixar felizes ou contemplar as nossas necessidades, é a ordem natural do novo mercado, o post que você apaga quando quer, a opinião que você faz quando deseja.

Penso que, esses bloquinhos são muito mais ricos e profundos, como o mantido até hoje no Recife/Olinda. Algo brincante, livre das amarras da cervejaria, mais humana, do que apenas alto lucrativo, é preciso repaginar o Micareta de Feira, como também, humanizar a própria Feira, torna-la feira de fato e não o Supermercado da classe A, que o pobre nunca entra.

Feira precisa entender que o Modelo Salvador de ser é cruel, poderia citar por exemplo, a invasão ao Cabula e a morte de diversas crianças e adultos negros, esse modelo de ‘salvar’ não salva nada, não fala sobre avanços, ele mata pessoas, destrói vidas e cessa sonhos – mantém a colonialidade e não constrói uma identidade própria, verdadeira e essencialista.

Feira, depois desse Micareta, que “penou na abertura” e que perdeu muito em patrocínios, tem a possibilidade de se pensar e construir-se mais humana e menos comercialista, uma cidade menos “princesa-arrogante” e mais popular, pode chamar o povo para a mesa e dialogar sobre empreendedorismo e comércio criativo, mais profunda, feito para o povo, como uma Feira deve ser.

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