quarta-feira, fevereiro 19

Lavador de carros que apareceu no próprio velório continua morto para a Justiça em Alagoinhas

O lavador de carros Gilberto Araújo Santos, 49 anos, está morto há sete anos. Conversamos com ele na última quarta-feira, em Alagoinhas, a 120 km de Salvador. Ao mesmo tempo que tomava conta como vigia de uma feira livre, passava a bucha em um Golf branco. A conversa durou quase 40 minutos, e perguntamos sobre como tem passado, onde anda sua família e quais os seus planos para o futuro. Mas o fato é que Gilberto está morto há sete anos.

Ao menos para a Justiça, Gilberto deixou de ser um cidadão vivo depois que seu atestado de óbito foi emitido pelo cartório da cidade no dia 22 de outubro de 2012. Nos dias seguintes, ficaria conhecido mundialmente após o CORREIO publicar a história do homem que teve o “privilégio” de estar presente no seu próprio velório. Apareceu de repente no local em que sua família lhe dava o último adeus. Enchiam a sala da casa de sua mãe, na zona rural. Estavam velando a pessoa errada. “Foi o dia mais feliz da minha vida”, disse Gilberto, sete anos atrás. “Tive certeza que sou querido”.    

É que no dia anterior à emissão do atestado, outro lavador de carros muito parecido com ele foi morto a tiros. E o mais impressionante. O crime aconteceu a uns 300 metros de onde Gilberto estava. “Fiquei sabendo dos tiros e fui ver. Vi ele no chão ainda vivo e fui embora”, narrou Gilberto, à época. Ainda mostramos a luta para que, enquanto curtia a fama, Gilberto tivesse de volta o direito de estar vivo oficialmente.

Acontece que ele não conseguiu até hoje a anulação do atestado de óbito e os seus documentos de volta. Gilberto conta que não pode sair da cidade porque não consegue comprar uma passagem de ônibus. Também não tem carteira do SUS para ser atendido em uma unidade de saúde pública. Gilberto não vota nas eleições, não pode se matricular em uma escola ou um curso profissionalizante. “Para o mundo eu continuo morto”. 

Gilberto mostra ao CORREIO sua certidão de óbito em 2012 (Foto: Tayse Argolo/ Arquivo CORREIO)

A sua certidão de nascimento não serve para nada, já que o cartório tem ele como morto. “Na verdade, queimei o atestado de óbito”, revela ele, que admite não ter corrido atrás para resolver a situação. “Tem isso também”.   

Gilberto conta que, com a ajuda do radialista Marcos Aragão, o primeiro a dar o caso na imprensa, duas audiências foram marcadas no Fórum, mas nada se resolveu. Chegou a perder a vaga de emprego em uma cervejaria porque não tinha como assinar sua carteira de trabalho. “Teve até promessa de emprego da Schincariol, mas nada foi pra frente por causa do documento”, confirma Marcos Aragão. “Só trabalho avulso, fazendo bicos”, diz Gilberto. 

Repercussão
Depois que a Rádio descobriu Gilberto, o CORREIO repercutiu a história. Jornais e revistas do Brasil e do mundo publicaram o caso. TVs de todo o país e revistas vieram a Alagoinhas. Sites do mundo inteiro procuraram Gilberto. Houve até transmissão ao vivo pela BBC de Londres. “Mandaram intérprete”, conta o radialista.

Hoje, o morto-vivo bem humorado do passado, e que deitou no túmulo onde seu sósia seria enterrado, é um homem cheio de amargura. Não ganhou um centavo com a visibilidade. Mas o pior mesmo é não poder provar que está vivo. “Ele sempre me pede um dinheiro, eu dou R$ 5, R$ 10. Muita gente na época fez a cabeça de Gilberto dizendo que eu tinha ficado rico às custas dele. Imagine”, lamenta Marcos Aragão.

Na época, inicialmente, o verdadeiro morto havia morrido como indigente, não tinha documentos. Mas, segundo Gilberto, a família dele seria de Dias D’Ávila e apareceu um mês depois para buscar o corpo. 

Irmão
O culpado da identificação trocada no reconhecimento do corpo foi o irmão de Gilberto. Um funcionário do hospital para onde a vítima foi socorrida avisou a um primo que um homem muito parecido com Gilberto tinha ido a óbito. O irmão do lavador foi chamado e não teve dúvida: “É ele”. Fazia semanas que Gilberto não ia na casa da mãe. 

Na época, a família pagou R$ 800 pelo caixão e os outros serviços funerários. O velório atravessou a madrugada. “Foi suco, café, pão, bolacha e muito choro”, contou a mãe de criação de Gilberto, Marina Souza Santana. “A gente beijou a testa dele a noite toda”. 

Quando amanheceu, um colega do irmão avistou Gilberto na rua e avisou que ele estava sendo velado. Apareceu de supetão. “Saímos da tristeza para o susto. E do susto para a alegria”, contou dona Marina. Hoje, Gilberto diz que vai em casa só para ver a mãe, se afastou da família.

Pelo menos, a esperança de conseguir ressuscitar ressurgiu. “Agora que vocês me acharam aqui, tenho fé que vou conseguir minha documentação”. O CORREIO procurou o Tribunal de Justiça da Bahia (TJ-BA) para entender por que Gilberto ainda não teve o atestado de óbito cancelado, mas não teve resposta até o fechamento desta edição.

Entenda
No dia 21 de outubro de 2012, um homem foi morto a tiros na cidade de Alagoinhas, a 120 km de Salvador. Ele era muito parecido com o lavador de carros Gilberto Araújo dos Santos. O irmão de Gilberto reconheceu o corpo como sendo do seu ente querido. O velório acontecia na sala da casa da mãe de Gilberto quando o próprio apareceu. Uns correram, mas a maioria comemorou e o abraçou. “Foi o dia mais feliz da minha vida”, recorda.

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