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A CANGALHA DAS METÁFORAS

Divulgação

Onde havia cangalha havia burro; onde havia burro havia tropa; onde havia tropa havia tropeiro; onde havia tropeiro, havia carga sendo transportada para algum lugar onde o vento fazia a curva ou Judas perdeu as botas. Os tropeiros foram, no antigamente, os carregadores de sonhos, o elo entre a civilização e as comunidades esquecidas nos confins das necessidades.

A cangalha era o suporte dos caçuás, receptáculo de cipó grosso e resistente, onde era colocada a carga. Sem ela, não havia como se fazer o transporte de mercadorias pela caatinga, em estradas de difícil acesso e de grande penar. Os tropeiros transportavam de tudo: o ouro das Gerais, a borracha da Amazônia, o açúcar dos engenhos, o cacau no Sul da Bahia e o tecido de chita que faria muitas mocinhas realçar a beleza e arranjar casamento. Se naquela época houvesse uma greve nacional dos tropeiros o estrago causado seria bem maior do que a greve recente dos caminhoneiros.

“Vento que embalança as páias do coqueiro
Vento que encrespa as águas do mar
Vento que assanha os cabelos da morena
me traz notícia de lá.”
Prece ao vento – Gilvan Chaves

As marés e suas ondas que arrebentam na praia, as palhas dos coqueiros que balançam de um lado para outro num bailar constante, os furacões com suas forças destruidoras, são movidos pelos ventos que não se repetem em suas tragédias. Nem em suas bonanças. O vento que move os moinhos é como a pedra de rio que rola no leito sem se banhar duas vezes na mesma água profunda ou rasa. O rio, a utopia sertaneja, a pedra filosofal na intensa precisão da caatinga, um desejo inatingível, um sonho irrealizável.

Esse rio filosófico numa terra onde reside a crença é como o vento que levava as notícias e as novidades nas cangalhas dos tropeiros. O Junco, não o lugar-comum da literatura de alguns conforme se manifestam certos analistas literários quando citam o Junco como uma cidade fictícia, mas a terra assolada pela inclemência da seca que pariu milhares de viventes precisos e outros milhares de anjinhos não mais precisos, o lugar real, pachorrento, cujo tempo psicológico tinha a duração da eternidade, foi povoado e construído graças à intrepidez dos tropeiros que se aventuravam na caatinga inóspita e hostil em busca de mantimentos e de material necessário para a construção das casas.

Casas assentadas, povo a prumo, vida sem rumo. As notícias chegavam na garupa dos tropeiros itinerantes que partiam na mesma velocidade do vento. Mas, ao contrário deste, eles voltavam. Sempre. Voltavam transportando o vento novo nas cangalhas para contar as novidades que, na maioria das vezes, havia tempo que deixaram de ser notícias novas.

Deste modo, tomando a cangalha como metáfora da construção de um povoamento na inclemência da caatinga do sertão baiano, como também do processo migratório que acometeu as gerações seguintes desse lugar devido à falta de expectativa, cujo contra fluxo acontecia de acordo com as notícias levadas pelo vento, transformando o migrante num tropeiro moderno, o autor Luiz Eudes traz alguns personagens à luz da reflexão sobre a questão migratória do sertanejo para São Paulo como também do seu retorno à terra natal. O título chama a atenção pela construção não oracional, uma preposição ligando dois substantivos que definem a temática romanesca: “Cangalha do vento”, é o título, e aqui não se trata de posse da cangalha pelo vento por conta dessa contração preposicional que passa a ideia de posse. O título vai além do seu significado semântico e adentra as implicaturas conversacionais da pragmática, sendo preciso ir além do contexto para entender as nuances históricas da formação da sociedade junquesa, uma mistura étnica do europeu falido e do índio escorraçado pelo branco.

Assim, “Cangalha do vento” transcende o espaço-tempo e relata a eterna procura do homem por um lugar ao sol, mas na expectativa de um breve retorno às suas origens, sempre perguntando ao vento quando chegará o fim do seu tormento na vã esperança de que um dia o vento possa responder.

Tom Torres é autor de Ilusões Desnudas e Arraial do Junco, formando em Letras pela UFAL e diretor do grupo teatral Mandacaru.

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