terça-feira, maio 26
Shadow

Cangalha do Vento

Às vezes leio obras famosas lançadas por grandes editoras, com muito marketing envolvido, com todo o suporte para ganhar a atenção dos leitores, -, mas apesar de tudo isso, nem sempre o livro toca o meu coração. Mas, às vezes, chega as minhas mãos um livro, produção independente de um autor da minha região, sem as mirabolantes jogadas de marketing, sem a carapaça das edições luxuosas, mas ele vem carregado da simplicidade da história bem contada e carregada de memórias que fazem a alma se aquecer de uma ternura aconchegante.
Quem já leu o livro de “Antônio Torres” vai logo fazer uma correlação com o livro “Cangalha do vento”.
“Era meio-dia e eu sabia que era meio-dia simplesmente porque ia pisando numa sombra do tamanho do meu chapéu, o único sinal de vida na vela praça de sempre, onde ninguém metia a cabeça para não queimar o juízo”.
Nesse trecho do livro “Essa terra”, Torres já traz o antigo junco, hoje Sátiro Dias, das histórias também contadas por Luiz Eudes, décadas depois, no emocionante “Cangalhas do Vento”. Aqui, o autor chega com seus contos entrelaçados misturando as histórias de várias gerações de uma mesma família, conta os nascimentos, as mortes, as tristezas e alegrias de pessoas que resistiam a tudo: Exílio, seca, desprezo, fome, ditadura militar, e não sucumbiram porque amavam uma terra onde suas raízes permaneciam sustentando seus sonhos.
Nos contos de Luiz Eudes, eu também revisitei meu chão, mesmo que ele hoje, como na literatura, esteja mais presente nas lembranças. Relembrei o homem que ligava o motor da luz, o retratista dos binóculos, os flamboyants enfeitando a caatinga seca, a banda que tocava na carroceria de um caminhão, os banhos de riacho, o açude transbordando quando a chuva finalmente caía trazendo esperança, os umbuzeiros carregados de umbus-relembrei os causos dos potes de dinheiro desenterrados na calada da madrugada, das histórias de assombração.
Esse livro remexe na alma de quem viveu no sertão, tira as melhores memórias de dentro das gavetas mais escondidas da alma, mas mesmo para quem sempre viveu longe da aridez dessas terras, esses contos trazem um doce e inexplicável saudosismo – trazem encantamento!

Waldíria Bittencourt
Amor pela literatura.

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