segunda-feira, setembro 21
Shadow

A viagem do desespero

Para Jorge Amado

Retirantes por léguas de estradas de pó e poeira. Caminhos sem fim, sem água e sem comida, sem sombras e sem regatos. É a saga e a luta. É a odisséia do sertanejo. É a viagem do desespero na longa estrada da esperança ou da agonia. Caminhos de ida e de volta. Estrada de vida e de morte.
Rústica e seca, agreste e violenta, a caatinga se espalha. Por veredas do sertão árido e bravio crescem as árvores e os arbustos. Cobras e lagartos se arrastam nas areias quentes sob o sol escaldante das tardes de verão, entre garranchos de macambira, desviando-se por entre as duras pedras em busca de alguma sombra que possam aliviar tamanho sofrer. Sim, até mesmo as cobras também sentem as dores e os castigos da seca. Algumas espécies são venenosas: a cascavel e a malha-de-sapo, a jararaca e a surucucu, e é preciso cuidado no trato com elas.
O sertão é o coração do nordeste. Os espinhos são muitos, e tem a sede e a seca, o flagelo e as doenças, a fome, o veneno e os espinhos, a falta de tudo, até mesmo de uma árvore sombrosa e frutífera que possa saciar a fome e o cansaço. Apenas os juazeiros e as pitombeiras, os umbuzeiros e as juremeiras, se movimentam com o pouco vento que ainda insiste em soprar, balançando mansamente os seus galhos tristes de míseras folhas sem sombras e nenhuma flor ou fruto. Restos de vidas pendurados. Ademais, restam apenas os mandacarus e os cactos, os xique-xiques, e as coroas-de-padre. Nada mais. Nem preá nem raposa, nem camaleão nem teiú. Antes havia os bodes e as cabras que ajudavam a aliviar tamanho sofrimento com leite e carne. Havia os jegues que faziam o transporte. Agora não há mais nada. O sertão não é nada mais que dores e sofrimento. Nada mais é.
Pelo sertão sem sombras e sem regatos viajam homens e mulheres, crianças e idosos, a caminho de São Paulo o mar das ilusões. Uns saíram porque a seca castigou o seu roçado, acabando com todas as suas esperanças de uma safra, apesar de pequena seria de grande valia. Outros porque os fazendeiros tomaram-lhe as suas terras, tirando-lhe o direito ao plantio e a colheita. Sem trabalho e sem dinheiro, sem futuro e sem esperanças, vão eles em busca dos grandes centros, e quase sempre tentam chegar a São Paulo, fazendo a viagem do desespero pelas estradas da agonia. Muitas são as dores e o sofrimento, as necessidades e às privações. São humilhados e massacrados. Famílias numerosas vêem-se reduzidas, muitos adoecem e morrem pelo caminho. E lá vão eles fazendo essa viagem que há muito começou e não se sabe quando irá acabar. E pela mesma estrada outros retornam desiludidos. A angústia do retorno sob a desilusão da vida, de São Paulo, do mundo! E é difícil imaginar quem sofre mais: se os que estão indo em busca do falso ouro ou se os que estão retornando desiludidos, com a certeza de que ouro lá não existe. Mãos calejadas, rostos marcados pelo sol e pés descalços. Gente simples e humilde que luta e trabalha, que sofre e labuta, que supera cobras e lagartos, que se rasga nos espinhos. Dura imagem do abandono, da angustia e da agonia, nessa viagem do desespero.

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