quarta-feira, setembro 30
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Meu vizinho é um perigo: sem covid-19, Pedrão resiste cercado por cidades infectadas

Barreira sanitária montada na entrada de Pedrão tenta conter o coronavírus (Prefeitura de Pedrão / Divulgação)

No mapa do coronavírus no estado ela sequer aparece. Esse município de 7,5 mil habitantes hoje, é a primeira cidade num raio de 100 km a partir de Salvador sem caso confirmado de covid-19.

Pedrão é um oásis, cercado por todos os lados de vizinhos com números crescentes de moradores infectados. A façanha será continuar incólume, mesmo sendo tão dependente de quem vive ao lado. A cidade fica na região de Alagoinhas, município que já tem 169 casos confirmados.

A dependência maior, quase diária, no entanto, é com os municípios vizinhos de Irará, que tem seis casos confirmados – todos registrados na última semana – e Coração de Maria, que tem 12. Um cerco que vem se fechando: “É o Sagrado Coração de Jesus, nosso padroeiro, que vem nos protegendo”, diz Elisângela da Silva, moradora de Pedrão.

Questão de sorte ou de tempo?

Voltemos a Pedrão, que coleciona curiosidades. A cidade passou por fortes emoções na última semana: em 30 de maio, um sábado, a Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab) divulgou no boletim diário que Pedrão tinha registrado o seu primeiro caso.

A informação gerou apreensão. A secretária de saúde, Jananci Xavier, publicou um vídeo nas redes sociais explicando que se tratava de erro no sistema da Sesab. Na terça-feira, o estado admitiu o erro. A resistência continuava.

Pedrão tem uma sede muito pequena, à beira da BA-503. O município é basicamente uma grande zona rural, já que 80% da sua população está espalhada em pequenos povoados. Os residentes fixos são em sua maioria idosos, cujos filhos vivem e trabalham nas cidades ao redor.

Pedrão é um bom estudo de caso para os perigos que a covid-19 leva aos menores rincões baianos. Não há estrutura hospitalar: dispõe apenas de pronto-socorro, aberto 12 horas por dia. Casos de média complexidade precisam ser enviados para o Hospital Dantas Bião, em Alagoinhas – a sede da região de saúde. A unidade dispõe hoje de 12 leitos clínicos e 12 de UTI reservados para covid-19, isso para atender 18 municípios.

A ligação de Pedrão com Alagoinhas, distante 25 km, é da ordem da saúde. Em relação a empregos e comércio, a relação é mais estreita com Irará e Coração de Maria, distantes 16 km, cada.

O município não possui agência bancária. Dispõe apenas de uma casa lotérica e um posto de atendimento do Bradesco. Na prática, os moradores acabam tendo que se deslocar para cidades vizinhas a fim de sacar dinheiro. O que, em tempos de pandemia, torna-se um risco.

O medo não é só em época de contágio, mas também de saidinha bancária. “O problema é que na data do pagamento todo mundo vai sacar e acaba o dinheiro. E eles não repõem. Aí quem não consegue precisa se expor para tirar dinheiro em outra cidade. Muita gente tem medo. Eu, inclusive”, lamenta Elisângela da Silva.

O prefeito Sosthenes Campos reconhece que essa é uma das suas maiores preocupações: “Há seis anos, bandidos estouraram o posto de atendimento e desde então o banco tem colocado menos dinheiro. Isso é um problema não só pela pessoa se expor ao contágio, mas também porque o dinheiro não circula no município”.

Em relação ao coronavírus, a prefeitura tem se esforçado para evitar o perigo da vizinhança. Instalou uma barreira sanitária na principal entrada do município, pela BA-503, vindo da BR-101. Lá é feita aferição de temperatura, é preenchido um questionário e são dadas orientações a quem chega.

Na ligação entre Pedrão e Irará ou Coração de Maria o prefeito não conseguiu implantar a mesma medida: “Tentei criar um bloqueio, mas a oposição começou a fazer tumulto e recuamos. Os prefeitos vizinhos também não aprovaram nossa medida”.

“Esse é o nosso maior medo: não temos comércio que atenda aos munícipes, então o povo aproveita que vai sacar o salário nas cidades vizinhas e fica lá para fazer compras”, aponta o prefeito Sosthenes Campos.

Nas últimas semanas, moradores e prefeito relatam que aumentou o número de pessoas aproveitando os feriados para visitar Pedrão: “Estou com muito medo. Vejo muita gente de Salvador, Feira de Santana, mas que tem casa na zona rural daqui, vindo para cá. O problema é que eles não usam máscara, não estão nem aí”, desabafa Elisângela.

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